sábado, 6 de fevereiro de 2010

um poço de nós

sábado, 23 de janeiro de 2010

“O Brasil vai virar favela ou a favela vai virar Brasil?”



“Celso Moretti Reggae Favela” é o nome da exposição que vai levar o público a percorrer os caminhos da vida do artista. O compositor vai abrir sua casa para a mostra no bairro Bandeirinhas, em Betim, no próximo dia 27, a partir das 13h. Desenhos, colagens, esculturas, fotografias, sala de vídeo, de figurino, objetos pessoais e de trabalho ocupam os espaços internos e externos da casa. Seleções que fizeram parte dos 30 anos de produção artística de Celso Moretti. A atriz Cida Ambrósio, fundadora da Questão Z Cia. Cênica, assina a pesquisa documental e os textos da mostra.

A quem diga que o “Movimento de Cultura Alternativo Carne pra Bife”, organizado por Celso Moretti e Marcelo Borges, balançou os pilares de Betim nos anos 90. “Shows relâmpagos” de dança, música, teatro e poesia eram levados, nessa época, para o mercado e diversos locais públicos da cidade despertando o olhar curioso do público que era induzido a presenciar as ações. O que restou da memória do grupo também pode ser conferido na mostra.

“Nega doida”, “Meu primo José” e “Zumbi” são músicas do repertório de Celso Moretti que ganharam outras versões na exposição. O artista produziu esculturas em homenagem aos personagens de suas canções. A mostra, assim como o palco, são para o cantor um verdadeiro ritual que legitima a relação que ele tem com sua própria arte, vida e pessoas.

Segundo o artista, a mostra é uma espécie de experimentação para a realização de um outro projeto maior, além de ser uma chance de maior aproximação dos fãs com sua obra. “O projeto para o futuro é abrir um museu do Reggae que aponta o histórico e o crescimento desse estilo musical em Minas”, revelou.

Grupos com mais de 10 pessoas, escolas públicas e privadas da cidade devem agendar, previamente, a visita à exposição. A casa, localizada na rua Leonardo Lopes Cançado, 60, no bairro Bandeirinhas, em Betim, estará aberta para visitação às terças, quintas e sábados, a partir do dia 27 de janeiro, de 9h às 17h.

Assessoria de imprensa: carolara2001@gmail.com
Agenda para visitação: moretticelso@hotmail.com


Rindo com o céu

Dor e alegria, palavras aparentemente opostas, se fundem em imagens sonoras, dando vigor ao Reggae Favela de Celso Moretti. As letras de suas músicas não apenas buscam traduzir o cotidiano das periferias dos grandes centros urbanos, mas dizem respeito também a um ritmo musical indomável, enfurecido e pessoal de um artista que observa a cidade. Esse olhar que vislumbra as arestas dos territórios delimitados modifica a realidade das estruturas, sobretudo, políticas e culturais, na medida em que não se direciona para os sistemas funcionais. O Centro torna-se então Favela. Modulações sonoras que retornam para centros diferenciados, trazendo elementos incomuns à memória musical e textual, ofuscando assim, os modos pré-orientados de reconhecimento visual da audição. Ouvir uma canção Favela é como cantar na chuva. Não tem chuveiro, tem céu.

sábado, 16 de janeiro de 2010

É nocaute outra vez





Dono de um punho direito poderoso, Muhammad Ali-Haj desabava ao chão todos os seus inimigos. O boxeador dançava no ringue e desenvolvia, em cena, uma retórica inabalável.

Para os lutadores, aqueles que pretendem “dar uma boiada para não sair da briga”, do seu legado, Ali deixou uma importante questão (que envolve outras tantas) que merece atenção: o motivo da dança.

Os pés maleáveis e deslizantes operavam os esquemas de ataque e defesa dos punhos. Seu ritmo encurralava os adversários no canto e nas cordas da “arena”.

Na luta histórica contra Foreman, em 1974, Ali emocionou seus fãs, o público e os jornalistas da época, que hoje narram com esmero a impressionante jogada. Somente depois de alguns rounds Ali reagiu e, com seu nocaute irrepresentável derrubou Foreman.

O que mais parecia assustar a plateia, o fato de apanhar incessantemente com socos insanos, não passava de estratégia. Não se tratava de cansar simplesmente o inimigo, mas, sobretudo, dar a derrota a indubitável certeza da derrota.

Esse é o motivo da dança. E isso, independentemente de convicções religiosas e políticas (o que sobrava em Ali).

Com sua dança, ele desenhava as possibilidades da sua própria derrota. Paradoxalmente, acertava a cada erro empenhado.

O motivo da dança, portanto, não é o de vencer ou perder. É poder distender, dispensar, experimentar e libertar todos os caminhos traçados a priori, o que não significa a anulação das estratégias. Ao contrário, é pela estratégia que se desmonta estratégia.

domingo, 3 de janeiro de 2010

"Esta, afinal, é osso dos meus ossos"


da moça
Em que poderia ela acreditar (fala em terceira pessoa para que possa falar também de uma outra que não ela) se quando nua diante do espelho as costelas eram as que mais apreciava. Eram ossos que sustentavam a cintura. Dança de judeus. As pernas imóveis e enormes. Seios duros.

E a agonia do quadril ao dar-se conta de que era a espinha dorsal tudo o que vingava os movimentos crus. Ora lentos, ora medianos, sem caráter algum. Alegrava-se com o som impostado das palavras que ousavam o tom da interpretação investida por qualquer ator. Mas não era cena.

Era de verdade. A água caia sobre as sílabas que tentavam fingir fingimento. E as costelas lá, acompanhadas da espinha dorsal, num erotismo ereto, quase confortável. Ela quando banca a nudez, banca para ela mesma. A pele suspensa na suspeita da imensidão possível de cada abertura, cada buraco.

Toda marca tem nos olhos o odor do que fora antes da marca. Os olhos são todas as coisas, a neuro química das imagens.

Hoje não tem nada na escrita que não seja dela. Somente ela, levemente oscilante pelas costelas – dela mesma.

E feliz e sozinha e dramática na água. O corpo inteiro filmado pelos olhos dela –somente uma parte – a que o espelho alcançava (como um grito de Torah).

Nada de narciso. Uma mulher da Polônia. Sem dor. Sem cor. Fria. Mulher múmia que só vive para ela mesma. Sua vida é percebida quando está só.

E vive quando só.

Da mulher

Continuava a não crer em nada que não alguma coisa velha, os cinco primeiros livros pelo menos. O ar tórrido do deserto nunca sentira. Mas ficara em seu espírito temeroso a nova fé que anunciava corrupta e traiçoeira diante de seus olhos amendoados. Cílios poderosos. Protetores de poeira.

Curvadas as vértebras, durante a noite, o frio era doentio. Sentada em meio a ruína de suas unhas, imaginava-se equilibrada a um picadeiro onírico. O lenço jeitoso sob sua cabeça balançava ao vento que lhe fazia tremer os lábios carnudos, dando a impressão de que pudesse ela estar sorrindo.

Era linda. Nunca conseguira concentrar os pensamentos seus em apenas uma questão. Era mulher de muitos homens, no entanto, de nenhum. Porém, não era merecedora da fama que tinha, a de prostytutka. Seus olhares, moduladores cerebrais, encontrava virtudes em cada gravata, cabelo, chapéu, bermuda, cinto e pés grandes, assim como algumas mãos. Só não lhe apeteciam as barbas.

Lembrava alguma coisa do seu pai. Imaginava ela que Abrahão era cheio de cabelos por debaixo dos lábios. Não lhe agradaria beijá-los.
Por conseguinte, passou a conformar-se com tamanha falta de atenção. Esquecera um livro verde em um ônibus e, em outra ocasião, um outro livro no avião. Não lembrara da cor.

Bem debaixo de seus olhos, viu muitos morrerem. E pensava que talvez estivesse viva pelo simples fato de estar viva.

Sem filhos, tornou-se mãe derradeira. Com o osso sacro intacto mais o cóccix, a força de seu ventre era ainda mais calorosa.

As costelas contorcidas a bailar.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Merry Christmas


'I stopped believing in Santa Claus when I was six. Mother took me to see him in a department store and he asked for my autograph.'

Shirley Temple

sábado, 19 de dezembro de 2009

com as cadeiras quebradas (no confessionário de Carlos)


ESTRELAS NAS CADEIRAS
Lázaro Mariano

Decerto sem consultar o tempo
As estrelas chegavam de todas as direções
Cravando em décadas cada momento
Inventando o brilho das constelações

Não bastasse a poesia na intenção
Elas teimavam a virar cometas
Distribuindo magia em rara porção
Fazendo da imagem todas suas letras

Vieram aqui viver como anjos
Embalando calmas o rigor da vida
Indagando as horas trazendo o acaso

Buscando assento em qualquer arranjo
Outras cintilando tal qual uma Frida
Outras performáticas embaixo do vaso

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

como os sinos dobram


Quando alguém se prostitui com manias de chás. A camomila tem gosto de piano desafinado e mal tocado. Quando tudo é tão embaçado quanto a mente. Os destinos veem de longe vigiar a discórdia. Não é nada bonito. Aumenta gradualmente seu som de trompete descarado e me fale sobre os lábios, de toda a tristeza babada. O escarro do estômago. Toda a dieta vadia da economia do amor. Como falar do surdo, do seu metódico andamento sem que se saiba sobre seu som?

Os trovões e relâmpagos, com piedade, não destroem o céu; já os tornados dispensam a ceia, a família e o ser terrestre. Espelir o ser que já não foi e não é. Fazer dele o que em vida nunca é. Já não há mais nada para dizer sobre o mundo. As falácias, todas elas, já se esgotaram. Os argumentos, os discursos e até os paradoxos; todos cansando o universo com suas esquisitices preguiçosas. O corpo e sua zikzira enfeitada de batom, pó, esmalte e camisinha extra lubrificada.

Se se repara atentamente um objeto ou uma pessoa, observa-se a sua não existência enquanto objeto ou pessoa. O que se pensa sobre a coisa em si é só o que se pensa sobre a coisa em si. E nada mais. O para si é aquilo que pensa não ser o em si e, por isso, o em si é também para si. Todas as panelinhas induzem às comidas. As comidas nos levam para os porcos e seus chiqueiros. Lavagem de outros porcos. Todos os umbigos ligados a imundice, a sujeira.

Se tudo o que é visível é tão ordinário, a beleza é só disfarce do turbilhão de ares turvos, monstruosos, opacos. Ela é o centeio destrutivo da terra. Assassinos de coisas terrenas e feias. No dia em que a terra parar, já estará ela parada, desolada e morta.

Racionalizar as coisas belas: trazer o pessimismo à tona; mesmo que ele não exista. O abraço enroscado no canto da paisagem. Areia. Pedra. Mar. O céu em quarto plano. Escrever é como capturar uma imagem musical. Soa todos os ventos da noite e também os da manhã. Eles se misturam e um sopro se coloca no lugar do outro. A possibilidade do não som aos ouvidos.

Quando for a sola do calçado a julgamento, os pés, todos eles, jamais serão alegres descalços. Todo chão que se pisa, rachado, fingirá complacência e lealdade. E o caminhar ganhará status de doçura e sonho. Já fundo, enraizado, jamais cairá em seu próprio abismo. A cor da bandeira então não mais será capaz de moralizar a paz.

Todos os mortos, todos eles se ajoelham e, em silêncio, nos sinais de trânsito, meditam o último livro dos últimos tempos. Passou da hora de ir, passou da hora de sair, passou da hora do não ser. Passou da hora da hora da hora da hora da hora da hora. Quando o discernimento se embriaga é hora de ir embora. Quando a sensatez aparece é hora de desaparecer. Quando todos os sinos, dobrados, se botam a tocar é hora de nunca mais ser tocado pelo céu.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

singela homenagem de amigo


No último domingo recebi uma feliz ligação:
Sylvia: e ai dada, beleza?
carol: porra, Sylvia, cê vai pra Inglaterra e nem avisa?!#$%@&*¨%$#
Sylvia: mas eu não avisei pra ninguem
carol: quê isso, e ai? como q foi?
Sylvia: Nossa, velho, du caralho. Ow, cheguei em berlim e lembrei docê, ffiii.
Carol: É mermo?
Syvia: é sô, tinha uma parada: eu sou dada!Né, tipo, a dada berlinense finalmente foi em Berlim*¨&%$#@
Carol: Sério! que louco, manda lá no meu orkut*&¨%$#@!@#%$%#¨$*&¨%&¨*&¨%$&¨*&¨% quero saber tudo blá blá blá blá blá blá te ligo no findi. pi pi. A. da da.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O senso crítico e a tomada de posição: como se filosofa com o martelo?



trabalho fotografado por Renato Negrão em Porto Alegre, na Bienal do Mercosul, cais do porto

domingo, 25 de outubro de 2009

O tempo do recurso do recurso é o recurso do tempo

Paráfrase
Guilherme Aguiar

Nosso tempo é esse
Nunca houve outro
Nem nunca mais…

Nosso espaço transborda
A borda-fronteira da cidade
Que não pode mais nos conter,
Que precisa conquistar outros reinos,
Talvez esquecidos…

Não nos demoremos mais,
Não nos demoremos muito
Em viagens imaginárias...
Não curvemos nossa força
À inércia contemplativa

A paz depende da luta
A vida, da morte das incertezas,
O amor, de esforços de assalto aos corações
Incapazes de declarar seu intento…

poema alucinado

Ganhei, na última semana, este poema alucinado escrito por um amigo ainda mais alucinado.


O VICE

VC DESTRUIU TODO PLANO

A JOGADA

O
TABULEIRO
DE
XADREZ

VC

COMEU
A
RAINHA.

A RAINHA

ROEU

A

ROUPA
DO
PRESIDENTE.

O VICE- REI
REINA
MAS
NÃO
GOVERNA?

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Força revolucionária de uma nova moral


Gostaria de indicar um lindo, esclarecedor e bem escrito artigo do prof. Mauro Araújo. "Uma nova moral em Nietzsche" pode ser lido em Ciência e Vida, v. 8, p. 34-45,2008. Fiquei muito feliz com o encontro (por acaso, com minha sobrinha no shopping, entrei na banca e vi a revista) pois é muito raro encontrar bons textos sobre Nietzsche no Brasil. (pelo menos dentro da minha pouca vivência acadêmica - e isso se resume em três experiências: 1 -prof. de teoria da comunicação III falando merda do filósofo - 2 - doutor em filosofia, professor do curso de especialização na UFMG, falando merda do filósofo e 3 - "nietzscheanos" falando merda do filósofo.
Tenham uma boa leitura.

domingo, 11 de outubro de 2009

vai lá

A casos felizes


Essa noite sonhei que me escrevestes um email, pela primeira vez. Via o nome na caixa de entrada, mas não conseguia abrir. Uma nova seqüência de imagens confusas surgiu em meu imaginário onírico e me perdi de você, mais uma vez. Ao acordar, fiquei pensando se mandastes o email do partido que a muito tempo vem contribuindo para o fracasso do que chamam democracia no Brasil.

Minha visão, ao passar em frente ao lugar onde pequenos comunistas se reúnem, turvou-se em borboletas enquanto Tchaikovsky fundia meus ouvidos com sua regência. Foi rápido. Mas você estava lá a me olhar. Sempre me olhando, me vigiando. Ah, acabo de me lembrar que, no sonho, não sei se logo após seu email, eu estava a escrever um texto que teria três partes, caso eu o concluísse. Era um texto sobre a raiva. Acho que Raiva I, Raiva II e Raiva III. Que coisa besta. O que eu poderia escrever sobre a raiva? Será que teria produzido um bom argumento sobre o assunto, se minha demente mente deixasse? Nunca pensei em escrever sobre isso. Talvez seja porque, quando acordada, tenho estudado muito sobre as relações Zweite Unschuld (culpa/dívida/inocência). Credor e devedor envolvidos entre delito, punição e vingança Ad infinitum.

Algumas boas idéias são reveladas em sonho. Por isso mesmo é importante e saudável que as pessoas tenham pelo menos oito horas de sono. Não apenas rumores de idéias em movimento, mas fortes e leves fragmentos de sensações perpassam por nossos corpos enquanto sonhamos. Não acontece da mesma forma com o sonho-pesadelo. Por algum motivo, não vamos até o fim com os pesadelos. Acordamos bem antes do desenrolar dos fatos. Se estou prestes a morrer violentamente ou de qualquer jeito, não morro, acordo. Se vejo o que não quero, mudo, em sonho mesmo, o rumo das imagens; por mais que isso me assuste e me deixa em estado melindroso, ainda estou no comando. Ah, outra coisa que acho muito engraçado também é que sonho com o amante sempre na primeira noite que está em minha cama. Ele do meu lado e eu sonhando com ele. Isso é muito divertido. O corpo e sua projeção de aspiração.

Raiva I – Consiste um conjunto de raivas que, separadamente, indicam o que, quem e por que.

Raiva II – estágio avançado da raiva, onde as táticas de desafeto, desavença e desespero são preparados e disparados.

Raiva III – momento de fingir desprezo. Diz não desprezar por não pensar no desprezado, sendo que: toda significância do ato de desprezar está na imagem do desprezado.


Estou orgulhosa de mim mesma. Consegui terminar, acordada, o meu sonho raivístico. O que antes acontecia muito e que não mais acontece e que gostaria muito que voltasse acontecer é a continuação do sonho em outro sonho, em uma outra noite. É sinistramente prazeroso.

O sonho dá ferramentas para a literatura. Não é tudo, mas sugere gentilmente algumas entradas que indicam algumas sinuosas passagens de cânticos e danças cheios de....Na verdade, não sei. Não faço literatura. Não sou escritora. Eu sou só sonhadora. Deliro sonhos que penso ser literatura. Aquele homem me mandou um email pela primeira vez e nem ao menos sei o que ele disse. Aquele homem que é artista, que é comunista, detetive. Ele que é misterioso. Ele que não diz que me ama, ele me procura em todos os lugares, quieto, calado, como se não me visse. O não dito é nosso labirinto saboroso. O dito é pura mentira de quem não sabe sonhar.

sábado, 3 de outubro de 2009

Cause nobody loves me. It´s true.



Ele perdeu a mulher e o filho. Ele perdeu os pais. Ele perdeu o pai. Ela perdeu o primo e os avôs. Ela perdeu o irmão. Todos morreram, “com o maldito cadarço vermelho que ela odiava”, dizia a mãe histérica, agarrada a outro homem, depois de ter perdido o marido e as filhas num acidente de carro.

Mas e se o que se perde, o que efetivamente vira pó, não é mesmo o que já se sabia da realidade incontestável do mundo dos homens? Não. O homem-nós pensa que está protegido das fatalidades da vida. E quando a tragédia passeia pela rua onde alguém mora, as crises são as mais variáveis possíveis. Do suicídio a depressão profunda. Da religião a violência. Nenhum niilismo ou existencialismo ou ainda qualquer vã filosofia poderiam curar a falta ou o excesso de imagens desejadas durante toda “uma vida”. Para desejar imagens é necessário que elas sejam criadas e conhecidas. Para desejar imagens é mesmo preciso que elas existam em algum lugar. Outro dia, indo assistir a um filme imbecil, um amigo me disse: “Nós procuramos o conteúdo nas imagens, somos carentes dele”. Será que as imagens que aparecem diante de nós são vazias como supostamente devíamos ser na modernidade? Vazios em relação ao que vem de cima. Vazio de Deus: auto-suficientes para representarmos a nós mesmos sem o aval da autoridade divina, sendo o homem o deus legítimo, mais especificamente, alguns homens deuses, outros súditos. Uma observação tão bem colocada por Didi-Huberman em relação a oposição crença e tautologia e a produção que advém dela: ao atualizar o conceito de Imagem Dialética, o autor nos leva para um caminho entre aquilo que foi nomeado, principalmente pelos críticos, e aquilo que olhamos, enquanto objeto de arte. Ele propõe um olhar que não necessariamente tem a ver com o que se quis fazer ou que se quis ver. É obvio: esse olhar entra na dinâmica da aura. São duas imagens em um foco só, “um longínquo que se aproxima”. Elas independem daquilo que são nomeadas. Nem o homem (vamos incluir as mulheres, não é mesmo? Elas também pensam) que crê em si mesmo ou aquele que crer em alguma entidade misteriosa, que teoricamente o guia, pode intervir na combinação visual que é produzida no momento em que a obra aparece diante de alguém ou do próprio realizador. Essa aparição é misteriosa porque não é possível saber em qual momento ela acontece (não vamos discutir agora se é possível a existência da aura benjaminiana em trabalhos atuais porque isso não é a pergunta aqui. O autor estava ocupado em entender as radicais mudanças no modo de produção, com o uso de novas tecnologias, e como isso estava afetando o modo, inclusive, não apenas de fazer arte, mas pensar arte). A pré-ocupação que quero evidenciar aqui são as diferenças entre vida e arte que se confundem a ponto de fazer paralisar uma ou outra coisa.

Portanto, o desejo é algo alucinante, imprevisível e não está a serviço de ninguém. Ele é produzido a todo instante. É por isso também que as oposições não são possíveis na realidade imanente. A sujeita (o) pode muito bem crer nela e em um santo qualquer ao mesmo tempo em que produz uma pintura na contemporaneidade que representa um deus, um amigo ou qualquer outra coisa que passe por sua percepção no momento em que está com seus objetos de trabalho nas mãos. Tenhamos muito cuidado com a palavra representação.

A culpa (religiosa) ainda permanece e o esquema operacional do pensamento continua o mesmo na modernidade, porém invertido. Antes, basicamente, culpa por não conseguir chegar a perfeição celestial e agradar o coração do senhor (Beethoven conseguiu com a Nona sinfonia e conseguiu, talvez, por odiar a possibilidade de se sentir culpado) . Depois (e talvez até hoje), culpa por não conseguir agradar os próprios corações humanos (então não faz sentido o rompimento com Deus). Seria problema de desejo? Seria um problema de representação do desejo? Mas e se queremos a representação do que ainda é inesgotável? Será que a palavra representar não está sendo mal representada? Será que ela está sendo representada como “apresentação”?

Deve ser por isso que inventaram a psicologia ou ainda deve ser por isso que alguns ainda insistem com a psicologia (e a partir dela, outras várias ramificações). O interessante é que não iremos nunca entender o que se passa na cabeça e no corpo de alguém por vários motivos e um deles, bem simples, é que nós mesmos não controlamos o que passa por nós. Por isso as teorias na área são problemáticas: as várias teorias, de várias naturezas, todas elas explicam o mundo desejado do ser. Aos menos, os filósofos ainda perguntam. Mesmo que sejam as mesmas perguntas, eles ainda perguntam. Deixam-nos pensarmos por conta própria. “Enquanto Freud explica tudo, o diabo fica dando os toques”.


Algumas imagens apresentam possibilidades, representando um universo que sempre será incompreensível, em escala escatologicamente inalcançáveis. Elas não se fazem opressivas, vergonhosas, culposas, verdadeiras porque quem as qualifica são os que se apossam delas. As imagens sem juízo deixam aparecer as outras imagens que as formaram, sem, no entanto, enfraquecê-las. Estão todas em formação no mundo, diante dos olhares que faz parte dele. O que fazer com isso? Nada. Talvez mudar a pergunta em favor de um novo olhar, aquele inspirador de aura, de vivência misteriosa em meio a coisas ainda mais misteriosas; que não é uma coisa, nem outra. Que não fere, não pune e se morre é porque morreu sem punição ou castigo. Morreu talvez porque Deus quis assim ou talvez porque somos muito parecidos com nossos cães e gatos ou ainda porque alguma coisa muito melhor do que esse mundo medíocre nos espera. Nada é conforto, nada é morte ou vida. O movimento não é acolhedor. Habitamos nele e aprendemos a viver com ele.

Essa noite eu/ vou amanhecer/ hoje eu vou sofrer/olhando o céu sobre a janela a me enlouquecer/ e toda essa gente suave que me faz parecer/uma doce nota azul/ em paz
(Banda Zanzara/Outro amanhecer)